DE 15 A 25 DE ABRIL

Toda a palavra ou enunciado são precedidos por uma voz silenciosa, por um sonho acordado repleto de imagens e de pensamentos difusos sempre actuantes no nosso íntimo. Mistura de fantasmas e de pensamentos claros, de lembranças ou desejos, essa voz enfeita a linguagem e fornece-lhe, ao mesmo tempo, o seu terreno fértil. Este mundo caótico e silencioso que nunca se cala é a nossa vida interior. As formulações que daí emergem podem depois ser esmagadas logo à nascença. As ditaduras, na essência ou nas margens dos regimes políticos, ou como doença viral em relacionamentos pessoais, tendem a calar o indivíduo. A modernidade, por outro lado, leva a mal o silêncio. A palavra sem fim e sem réplica prolifera em detrimento da palavra renascente da comunicação quotidiana com os nossos próximos. Falamos da palavra que muda de estatuto antropológico: sai da ordem da conversa, entra no domínio dos media, das redes, dos telemóveis. Philippe Breton falava do paradoxo de uma sociedade “altamente comunicante e fracamente coincidente”.

Se alargarmos a geografia das nossas reflexões, veremos também que Ocidente e Oriente assumem estratégias distintas de significação do silêncio e da palavra. Falemos então de silêncios - os que crescem connosco, os que estranhamos, os que quebramos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Em silêncio, pelo nosso amigo

O Engº Carlos Souto faleceu ontem, dia 21 de Junho. Foi nosso parceiro na organização da exposição de pintura subordinada ao tema «Silêncio», inaugurada a 17 de Abril no Mercado Negro. Esta foto foi tirada nesse dia. É com muito pesar que os membros das Oficinas Sem Mestre se despedem deste amigo. Não esqueceremos a sua alegria, dinamismo e generosidade.
Até sempre, caríssimo Carlos Souto!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Celina Pereira no Performas



Fotos de Jorge Vidal

«Estado de Graça»

Obrigada, Francisco Madeira Luís!

(...) As últimas semanas de Abril, em Aveiro, foram relativamente férteis em actividades culturais: uma série de performances, painéis, exposições ou ateliers, sob o tema “Silêncio”, organizada por uma pequena associação – Oficinas Sem Mestre – em vários espaços da cidade
(...) entre outros, três fabulosos registos fílmicos apresentados no evento sobre o silêncio (“Dundo – memória colonial”, de Diana Andringa, “Cruzeiro Seixas: o vício da liberdade”, de Alberto Serra e uma montagem com imagens da erupção do vulcão dos Capelinhos, nos Açores, em 1957/58, a partir do registo do Professor Frederico Machado);
(...) Dos três filmes direi: do primeiro que ele aclara bem os difíceis trilhos da ambiguidade entre consciência e estatuto de colonizador (e talvez também de alguns colonizados), do segundo que os trilhos, ou melhor, complexos, são agora o da coerência de um projecto criador e do terceiro que à acção da Natureza, ao contrário da do Homem, se nos impõe com a Beleza do inevitável, do arquétipo, para lá do Bem e do Mal, que daí advêm para a nossa espécie.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

De 22 a 25, Silêncio e ... festa!

Exibição do filme «Há lodo no cais» de Elia Kazan (EUA, 1958, 108'), seguido de debate com Maria do Rosário Fardilha. E depois, nova sessão de cinema (filme escolhido pelo público)/ Performas Dia 22 às 22h.

Inspirado no texto de George Steiner, «The retreat from the word», Painel IV, intitulado O DECLÍNIO DA ERA DA PALAVRA, com os profs. Isabel Cristina Rodrigues (UA/Dpto Línguas e Culturas), Fernando Almeida e Jorge Hamilton (UA/Dpto Geociências), David Vieira (UA/Dpto Matemática), moderado por João Martins (músico e sonoplasta)/ Performas Dia 23 às 22h

hã Toino de Lírio, o homem-estátua, António Gomes dos Santos/ Performas Dia 23 às 21h30 e 23h30

A cela branca de Ivar Corceiro, 6'13'' / [Painel V - SILÊNCIO NA MEMÓRIA COLECTIVA] Performas Dia 24 às 18h30

Dundo Memória Colonial, 60', documentário de Diana Andringa com a presença da jornalista-realizadora/ [Painel V - SILÊNCIO NA MEMÓRIA COLECTIVA] Performas Dia 24 às 18h30

Isabela Figueiredo / [Painel V - SILÊNCIO NA MEMÓRIA COLECTIVA] Performas Dia 24 às 18h30


CONCERTO DE CELINA PEREIRA, Mornas sem Tempo/ Performas Dia 24 às 22h30

Couscous Prosjekt, com Bagaço Amarelo e Moa bird/ Performas Dia 24 às 24h

Exposição/manipulação de cartazes políticos com Francisco Madeira Luís/ Mercado Negro Dia 25 a partir das 16h

Cruzeiro Seixas - O Vício da Liberdade, 54', com presença do autor do documentário, o jornalista Alberto Serra/ Mercado Negro Dia 25 às 18h30

... e isto não é tudo, há mais e mais, o que foi sendo criado/recriado/instalado ao longo da última semana, o que se acrescenta nos próximos dias, bombos!, festa, muita festa, com textos sub-vers-ivos e m-ú-s-i-c-a contínua pela noite dentro... porque o silêncio acaba no dia 25 de Abril e nós queremos gritar "25 de Abril SEMPRE!"!

Link: Programação detalhada

terça-feira, 20 de abril de 2010
















Grupo de Percussão da Associação Pelo Prazer de Viver, Mozelos, Santa Maria da Feira

No dia 17 de Abril, no evento silêncio, e em silêncio.
No dia 25 de Abril, pelas 16h00, sem silêncio. Aparece e "traz um amigo também"

domingo, 18 de abril de 2010

É possível figurar o silêncio?

Não é possível figurar o silêncio visualmente. Há figurações do silêncio, que são o próprio silêncio ou a impressão de um silêncio. A figuração do silêncio só pode ser auditiva, por confronto com a música e com o ruído. Mas, pelo contrário, é possível representar visualmente o silêncio.

(Profª Adriana Baptista, Painel «Olhar o silêncio» - Nas imagens o silêncio diz tudo ao mesmo tempo, dia 16 de Abril)





Penguin Books
Advertising Agency: DDB Hong Kong
Creative Directors: Ruth Lee, Paul Chan, O’ Poon
Copywriters: Paul Chan, Jay Lee
Art Directors: O’ Poon, Fei Leung 

Photographer: Steve Wong

Os silêncios da fala

São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor

MARIA TERESA HORTA

[Poema seleccionado por Alberto Serra para o seu recital de poesia. dia 17 de Abril, no Performas. para quem quis estar em silêncio. e escutar.]

Sobre perder tempo


O autor quer permanecer anónimo... mas os envelopes que compõe entre pinturas e colagens têm destinatários certos. As cartas que quase já não se escrevem merecem um envólucro especial. Uma recolha dos envelopes raros resultou numa exposição. Até ao dia 25 de Abril, em silêncio, venham descobrir um velho hábito que alguém mantém e que transfigurou em arte.

Comunidade de Leitores "Alma Azul"


Todos os meses, Elsa Ligeiro, responsável pela editora Alma Azul, vem a Aveiro orientar uma comunidade de leitores. Este mês o tema foi... o silêncio, a partir da obra de Maria Gabriela Llansol, «Amigo e amiga - Curso de silêncio de 2004». Para integrar esta comunidade de leitores inscreva-se usando o email das Oficinas Sem Mestre.

Colectiva de pintura intitulada SILÊNCIO

Colectiva de pintura dos artistas Acácio Rodrigues, Aida Viegas, Alzira Lopes, Artur Fino, Bela Bóinas, Carlos Muluba, Carlos Souto, Fernanda Santos, Gina Marrinhas, Jeremias Bandarra, Hélder Bandarra, Jorge Barroca, José Bello, José Monteiro, Lúcia Seabra, Mário Morais, Milú Sardinha, Patrão Lopes, Rosa Galvão, Zulmira Costa, Susana Távora.

[Imagens dos quadros de Patrão Lopes e Helder Bandarra]

mariana de almeida

«personagens imaginárias ou imaginários de uma personagem»



«no exercício constante do fazer de conta, faz de conta que é actriz.
significa, exprime, divaga estados de (in)consciência, gestos, silêncios, máscaras.
o retrato do imaginário...»

a doce avó musa da doce mariana esteve presente na inauguração da exposição (dia 17 de Abril).

«Larilála»

«Larilála» (Larissa Latif), o nosso mimo adorável que mimou os artistas e guiou o público entre (três) exposições, a sala de projecção contínua do filme de Kunio Katõ, La maison des petits cubs e outras actividades realizadas sábado, dia 17, no Mercado Negro.

Obrigada VAA pelo patrocínio!

Fotos Painel I - Olhar o Silêncio, Imagem e Comunicação

Profª Adriana Baptista, Dra Paula Soares, Rui Baptista (jornalista, moderador)

Schuuu...

Carlos Souto, 2009
Expo no Mercado Negro

sábado, 17 de abril de 2010

Isabel Cristina Pires

O NOME DA ROSA

No início era algo
que não tinha nome.

Teve de desabrochar e ficar nua,
e inventar o silêncio do esplendor
que só depois foi escarlate;
e desvendar outra coisa sem baptismo
que só depois foi perfume.

Nada tinha nome até nascer a rosa.


ESCRITA

A escrita faz do silêncio
uma planície amarela:
a cor
cumpre o seu fado de monstro
poisando nas palavras


in Isabel Cristina Pires (2007). Deserto Pintado. Lisboa: Caminho.

A ESCRITORA, HOJE, EM AVEIRO, NO PERFORMAS - PAINEL "SILÊNCIO NA LITERATURA", 22H

Gabriela Llansol

...viagem ao imaginário da escritora Maria Gabriela Llansol. por Vera Mantero.



Comunidade de Leitores, 18h00

Larissa Latif


Pra começar a contar

O meu nome é Larissa Latif Plácido Saré. Eu sou uma criatura cuja existência tornou-se possível graças às migrações. Avós migrantes de pai e mãe, pais migrantes, eu mesma, por mais de uma vez e agora, neste momento, migrante. Nasci em Belém do Pará, Brasil, um país de tantos percursos, tantas cartografias de chegadas e partidas. Vim a Portugal estudar festas populares. Festas católicas em homenagem a Maria, Meryan, uma mulher judia, nascida na Palestina que segundo a tradição cristã deu à luz o filho de Deus, Jesus, em Belém de Judá por uma circunstância histórica. O menino Jesus nasce migrante, como migrantes nasceram tantos meninos e meninas judeus e árabes numa região em que caminhar com as areias é o destino de tantos homens e tantas mulheres hoje como há dois mil anos.
Karine Jansen me pede para contar a história da minha família. Disponho-me a começar a narrativa e percebo que sei muito pouco. Um avô, Abdul’Latif Mohamed Saré, a quem devo o nome que assino com orgulho, como uma prova dessa identidade fugidia que me constitui: mestiçagem, migração, hibridação. Sujeito pós-moderno? Ou apenas mais uma mulher filha de tantos caminhos trilhados pelos ancestrais, caminhos de terra, caminhos de vento e de mar. Uma Latifa. Mais uma. Quantas haverá hoje espalhadas pelo mundo? Os árabes estão em toda parte.
Meu avô foi o meu ancestral mais próximo nascido no Líbano. Seu filho Ahmed, meu pai, me repetiu a história de sua vinda para as Américas durante toda a minha infância. Meu avô libanês, que não conheci, é um dos heróis recorrentes na formação de minha sensibilidade estética, histórica, geográfica, cultural, política. Ao escolher assinar Latif, longe de qualquer desprezo pelo Saré que identifica minha família, escolhi fortalecer um laço com meu ancestral naquilo que faz de mim ser o que sou, uma artista, uma narradora, uma viajante. O nome Larissa Latif para mim significa “Larissa, filha de Ahmed, neta de Abdul’Latif, o imigrante, o viajante, o narrador, o pai de Ahmed, o narrador, o viajante, o comunista, meu pai”.
O que sei de meu avô? Que nasceu em Hadara, um povoado montanhês no Líbano, na região de Trípoli, que perdeu o pai aos quatro anos de idade, vítima de hidrofobia depois de uma mordida de cachorro, que era um camponês pobre e tinha uma irmã chamada Nazira. Não lembro os nomes de meus bisavós. Aos dezoito anos, Abdul’Latif deixou sua aldeia, desceu até o porto de Trípoli e embarcou num navio para Marselha. Deixou sua mãe e sua irmã para não ser obrigado a alistar-se nas tropas turco-otomanas que ocupavam seu país. Sim, meu avô foi também fugitivo de um regime, como mais tarde seu filho Ahmed o seria. Deles penso que herdei essa sensação de estar em eterno sobreaviso, pronta para pular dentro ou fora de um trem a qualquer momento, em qualquer lugar, uma espécie de desconforto essencial, como se um gene andarilho e a necessidade de partir estivessem impressos em mim tal qual os traços que anunciam a qualquer um que vê meu rosto: Brasileiramente Árabe.

No dia 17 de Abril, em Aveiro, «Larilalá». Larissa Latif dando vida ao silêncio.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Hoje às 21h30 | Painel I – OLHAR O SILÊNCIO: IMAGEM E COMUNICAÇÃO | no PERFORMAS

Painel I:
Adriana Baptista, docente da ESE e da ESMAE, apresenta «Nas imagens, o silêncio diz tudo ao mesmo tempo»
Paula Soares
, docente da UA/DeCA, apresenta «Uma retórica do silêncio, João César Monteiro»

Moderação Rui Baptista, jornalista (Lusa)